Blog — 22 abril 2019

Aprender a falar é uma das conquistas mais importantes e mais visíveis da primeira infância.

Novas ferramentas de linguagem significam novas oportunidades para a compreensão social, para aprender a respeito do mundo, para compartilhar experiências, prazeres e necessidades. Posteriormente, nos três primeiros anos de escola, as crianças dão mais um enorme passo do desenvolvimento da linguagem ao aprender a ler. Embora sejam diferentes, esses dois domínios estão também relacionados. As habilidades iniciais de linguagem estão associadas ao posterior sucesso na leitura. Da mesma forma, a alfabetização e as atividades pré-alfabetização podem contribuir para as competências de linguagem da criança tanto nos anos pré-escolares como na escolarização posterior.

Considera-se que crianças que têm dificuldades de fala e de audição têm um comprometimento de linguagem. No Canadá e nos Estados Unidos, estima-se que de 8% a 12% das crianças em idade pré-escolar e 12% daquelas que estão ingressando na escola têm algum tipo de comprometimento de linguagem. Os estudos também mostram que de 25% a 90% das crianças com comprometimentos de linguagem apresentam distúrbios de leitura, definidos usualmente como pobre desempenho em leitura, que ocorre após suficientes oportunidades para aprender a ler. A incidência de distúrbios de leitura em crianças em idade escolar é estimada entre 10% e 18%.

Quando as crianças têm dificuldade de entender os outros e de se expressar, não surpreende que surjam problemas de ajustamento psicossocial e emocional. Crianças que apresentam atraso ou desorganização da linguagem correm, portanto, maior risco de apresentarem problemas sociais, emocionais e comportamentais. As pesquisas demonstram igualmente que a maioria das crianças que tem pobres habilidades de leitura ao final do primeiro ano do ensino fundamental continuará a ter dificuldades de leitura mais tarde.

O que sabemos?

Embora a natureza da atividade mental subjacente à aprendizagem da linguagem seja amplamente debatida, há um consenso considerável de que o curso de desenvolvimento da linguagem é influenciado por fatores determinantes em pelo menos cinco áreas: social, perceptiva, de processamento cognitivo, conceitual e linguística. Da mesma forma, embora existam diferenças individuais entre as crianças, o desenvolvimento da linguagem tem uma sequência previsível. A maioria das crianças começa a falar no segundo ano de vida, e aos 21 meses de idade provavelmente conhece pelo menos 100 palavras e é capaz de combiná-las em frases curtas. Entre quatro e seis anos de idade, a maioria das crianças fala com sentenças gramaticalmente completas e inteiramente inteligíveis. Suas primeiras sentenças são compostas por palavras de conteúdo e, frequentemente, faltam termos com função gramatical (por exemplo, artigos e preposições) e terminações das palavras (por exemplo, indicadores de plural e de tempo verbal). Embora exista uma sequência previsível, a taxa de desenvolvimento da linguagem varia substancialmente de criança para criança devido, primariamente, à interação complexa entre fatores genéticos e ambientais.

A quantidade e o tipo de estimulação linguística no lar e estresses familiares, como abuso infantil, afetam o desenvolvimento linguístico da criança. Da mesma forma, a qualidade da interação entre um cuidador e uma criança – como brincar com jogos de palavras ou ler livros – desempenha um papel importante nos resultados da alfabetização. As habilidades das crianças progridem mais rapidamente e mais prontamente em interações instrucionais caracterizadas por inputs sensíveis, responsivos e não controladores por parte do adulto. Outros aspectos do comportamento parental, tais como a participação frequente e regular em atividades de aprendizagem e o provimento de materiais de aprendizagem apropriados para a idade da criança, também favorecem os resultados da alfabetização. Além disso, pais que dispõem de mais recursos (por exemplo, educação, renda) têm maior probabilidade de oferecer experiências positivas de aprendizagem para seus filhos pequenos. Entretanto, características da criança (por exemplo, ordem de nascimento) também desempenham um papel central em suas próprias experiências de aprendizagem, sendo que primogênitos têm, em média, um vocabulário maior do que seus irmãos mais novos.

Crianças que têm vocabulário expressivo limitado (menos de 40-50 palavras) e que não utilizam nenhuma combinação de palavras aos 24 meses são consideradas como tendo desenvolvimento lento de linguagem expressiva (Slow Expressive Language Development – SELD). Essas crianças correm um risco maior de comprometimento de linguagem, que persiste ao longo dos últimos anos da educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental. Além disso, crianças com distúrbios do desenvolvimento da linguagem correm maior risco de apresentarem problemas comportamentais posteriores, dificuldades acadêmicas, incapacidades de aprendizagem, dificuldades sociais e distúrbios de ansiedade. O problema comportamental mais comum é o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH); os estudos mostram também taxas altas de problemas de internalização, como timidez e ansiedade. Crianças com distúrbios de linguagem são mais propensas a ter dificuldades com o processamento fonológico, a aprendizagem fonológica e a alfabetização.

A consciência fonêmica refere-se à capacidade de identificar, comparar e manipular as menores unidades das palavras faladas: os fonemas. Durante o primeiro ano de vida, as crianças são mais sensíveis a fonemas de seu idioma nativo e menos sensíveis a diferenças acústicas que não são relevantes para seu idioma. Aos sete meses e meio, o aumento da resposta cerebral das crianças aos contrastes de seu idioma nativo prediz habilidades futuras de linguagem. Consciência fonêmica e habilidades vocabulares são os melhores preditores de leitura e de compreensão de leitura, respectivamente. Algumas crianças são suficientemente competentes em escutar e falar, mas têm pouca capacidade de processamento fonológico. Ao ingressar apresentarem distúrbios de leitura. Há uma representação acentuadamente desproporcional de crianças pobres e pertencentes a minorias étnicas ou raciais entre as que apresentam dificuldades de leitura.

Finalmente, o desenvolvimento de linguagem e a idade de surgimento de combinações de palavras são comparáveis entre crianças bilíngues e monolíngues.

O que pode ser feito?

Intervenções precoces em linguagem durante a infância ou nos anos pré-escolares podem ter impacto significativo sobre os resultados da criança. Há pelo menos quatro contextos gerais nos quais a intervenção em linguagem pode ser oferecida: individual, em pequenos grupos, na sala de aula e por meio de capacitação dos cuidadores. Demostrou-se que quatro estratégias de ensino de linguagem melhoram as habilidades linguísticas das crianças. São elas: estimulação de linguagem na fase pré-linguística, para ajudar as crianças a fazer a transição entre comunicação não intencional e intencional; estimulação de linguagem espontânea, que consiste em técnicas específicas embutidas nas atividades e interações cotidianas da criança; interação responsiva, que envolve ensinar os cuidadores a ser altamente responsivos às tentativas de comunicação da criança; e estímulo direcionado, caracterizado por estimulação, reforço e retroalimentação imediata (feedback) sobre a gramática ou o vocabulário, em sessões altamente estruturadas. Em qualquer dos casos, é importante estabelecer o cenário para a aprendizagem de linguagem, criando oportunidades de comunicação, acompanhando a liderança da criança, construindo e estabelecendo rotinas sociais.

Nas intervenções em linguagem administradas pelos pais, estes são capacitados por fonoaudiólogos para que se tornem agentes primários de intervenção, aprendendo a facilitar o desenvolvimento de linguagem de seus filhos em contextos diários, naturalísticos. (Isto difere de envolvimento parental, no qual a criança recebe atenção direta do profissional e os pais desempenham um papel secundário de apoio). Intervenções administradas pelos pais produziram progressos, em curto prazo, no desenvolvimento das habilidades de comunicação e linguagem em uma ampla gama de crianças em idade pré-escolar com atrasos ou distúrbios de linguagem. No entanto, pouco se sabe sobre os efeitos de longo prazo deste modelo, que tem boa relação custo-benefício.

O treinamento de alta intensidade é uma estratégia de intervenção que visa melhorar a atenção de crianças diagnosticadas com transtornos específicos de linguagem. Considerando-se que o déficit de atenção está associado a transtornos de linguagem em crianças pequenas, e especialmente em meninos, o treinamento de alta intensidade envolvendo os pais e a criança deve ser encorajado. Com base em estudos recentes, verificou-se que esta intervenção melhora tanto a proficiência em linguagem quanto as habilidades de atenção das crianças.

As iniciativas de políticas sociais devem focalizar a identificação precoce por um fonoaudiólogo, a avaliação abrangente e o provimento de ambientes altamente responsivos o mais cedo possível. Da mesma forma, devem ser oferecidas capacitação e educação adequadas a todos os que trabalham com crianças e suas famílias, como fonoaudiólogos, interventores precoces, educadores infantis e provedores de cuidados infantis. No entanto, ainda há diversos obstáculos a serem superados, entre os quais medidas mais sensíveis de triagem/reastreamento para identificar os vários tipos de distúrbios, chegar a um consenso sobre a definição do caso, e promover o reconhecimento dos pais em relação aos potenciais problemas dos filhos e à necessidade de procurar ajuda.

Fonte: www.enciclopedia-crianca.com

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Janara da Silva

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